ESVAZIANDO A BOLSA

INGRESSO

Quando bárbaros armados de pedras, bombas caseiras, cacos de vidro e até de armas de fogo te roubam o direito de ir e vir, é impossível não passar a sentir ódio daquilo que dizem ser a paixão do povo brasileiro. E eu, que já gostei tanto de futebol, que sofria até o último minuto da prorrogação dos jogos do Corinthians, que durante a copa de 1994 ajudei a enfeitar e a pintar a minha rua de verde e amarelo, passei a ter aversão ao esporte desde que comecei a morar perto de um dos maiores estádios de futebol do país. Um dia, fim de tarde, da minha varanda, fiquei assistindo aquilo que parece um estado de natureza, enquanto lamentava a impossibilidade de ser pontual. Então eu pensei: “Meus Deus, essa é a humanidade”. Conformada com o adiamento do compromisso, peguei uma garrafa do meu vício (coca-cola) e voltei para a varanda, que naquele momento parecia mais uma ilha, com uma visão bem menos interessante, é claro.

PASSAPORTE

Joelma, uma colega do curso de Filosofia que está fazendo doutorado na Alemanha, foi passar as férias na casa da mãe dela, em Mombaça/CE. A avó dela, com muitas saudades da neta querida, disse o seguinte à mesma:
– Minha filha, volte pra casa, você está estudando no fim do mundo!
Aí eu digo: “Fim do mundo não seria Mombaça, em vez da Alemanha?”

O mundo se urbaniza aceleradamente, mas a impressão que eu tenho é que o bairro Passaré está cada vez mais rural. Só hoje eu vi duas vacas, um gambá e um sapo.

BILHETE

Aeroportos só me trazem lembranças ruins, e olha que eu não estou falando de “apagão aéreo”. A angústia, o medo, a humilhação, o mal-estar que tive em todas as vezes que precisei do transporte criado por Santos Dumont foram muito piores que passar horas esperando por um vôo. Tudo bem, confesso que estou sendo dramática demais, mas talvez me entendam depois de eu narrar a pior de todas as situações.

O ano era 1998 e eu trabalhava em uma empresa de equipamentos eletrônicos. Fui ao aeroporto a pedido (por ordem, na verdade) do meu chefe para pegar uma encomenda que não foi localizada na VARIG CARGAS. Eu, que nunca tinha posto os pés no local, tive que perguntar bastante até chegar ao ponto de ônibus e rodar meia cidade de Fortaleza para chegar ao destino. Na recepção, fui informada que eu teria que descer um viaduto para chegar até ao setor de cargas da aludida viação aérea. Lembro da expressão apreensiva da funcionária quando eu disse que iria caminhando.

O viaduto era estreito, mas o espaço era suficiente para mim e para os carros pequenos, só que, a uma certa altura, avistei uma caminhonete e decide passar para o outro lado do ferro que estava me servindo de corrimão. Começou a chover forte e a minha única preocupação era não molhar o número do pedido.

Ao tentar passar novamente para o viaduto, escorreguei e caí no barro que estava do outro lado do ferro. Então, além de encharcada, fiquei com as “pernas” das calças totalmente sujas de barro. Encontrei o setor de entrega e a encomenda foi achada. E a minha dignidade? Ah, essa foi totalmente perdida.

REMÉDIO

Há algumas semanas eu passei tão mal, mas tão mal que estava certa de que aqueles eram os meus últimos momentos na face da terra. Acordei às 20:00 da noite com uma dor que ia do coração ao útero, parecia uma mula colombiana com uma pílula de cocaína estourada dentro do estômago.

Como uma boa doente irresponsável, fui até à farmácia mais próxima para me automedicar, mas o balconista da farmácia sabia tanto sobre doenças como eu sei sobre inferência bayesiana (nada!). Então resolvi comprar um elixir por um real e cinquenta centavos, se eu iria correr o risco de comprar um remédio errado, que pelo menos fosse um remédio indicado pela minha mãe (hehehe). E a dor só aumentava, fui para o ponto de ônibus andando com dificuldade. Seria aquele o meu fim? Encostada no muro de uma farmácia de bairro esperando a topic 05, sem niguém para apertar a minha mão quando tudo ficasse escuro? Drama.

Coloquei tudo para fora e melhorei o suficiente para chegar em casa para me automedicar (por favor, não façam o que eu fiz). Desta vez o elixir deu certo, mas poderia ser o causador da minha morte (exagero). Talvez uma amiga, que está na faculdade de farmácia, tenha razão, eu só vou parar de ser tomar remédios por conta própria quando ficar com risco de morte (não sei porque falam risco de vida).

Agora vamos para o lado “pseudo-filosófico-tepeêmico” da coisa. Por mais que a vida nos prove diariamente que somos seres para a morte, nunca estamos suficientemente preparados para a partida. Acho que é essa insistência que temos em fingir que não sabemos que o tempo que nos resta na terra pode estar prestes a exceder assim como temos a ilusão de que seremos jovens para sempre.

MOEDAS

Na minha opinião, as melhores propagandas de operadora de DDD e DDI foram as da intelig, principalmente as que tinham como mensagem principal o título deste post. O primeiro link é da propaganda do consumidor que se irrita com o balconista que tentar dar balinha como troco, a frase “Você paga a fábrica de balinha com balinha?” é brilhante (hehehe), o segundo, mostra uma consumidora reclamando da falta de troco e exigindo o pagamento: “Vai ter que ter.”

O que me fez lembrar desses comerciais foi algo que aconteceu comigo na semana passada, no supermercado onde eu executo a pior tarefa de dona-de-casa-que-mora-sozinha. Eu comentei com a caixa que era um absurdo o estabelecimento vender produtos com os preços, tipo, R$ 1,47, R$2,99 ou R$5,53, já que não há moedas de um centavo para dar troco. Fiquei surpresa quando ela disse: ” Brasileiro é um povo complicado mesmo, depois todo mundo iria querer acabar com as moedas de cinco centavos, as de dez centavos, até chegar o dia em que não iria ter mais moeda. E as de um centavo só não estão circulando porque o povo joga fora, tá assim de um centavo no Banco Central “. Fiquei “besta” com a falta de informação daquela profissional, faz tempo que as moedas de um centavo saíram de circulação, o Banco Central não produz mais. Então eu percebi que a caixa já estava “por aqui” comigo, com toda razão, coloquei um fim no momento “tepeêmico” e paguei as compras, com o cartão alimentação, é claro.

CARTÃO

Órbita. Praia de Iracema. Fernando e Juliana, meus amigos que atualmente moram na capital de São Paulo, estavam em Fortaleza e conseguiram arrastar esta “Márcia Frank” para a noite alencarina. O Fernando encontrou um ex-caso e decidiu resolver algumas “pendências”, a Juliana, que prometeu dividir a despesa do táxi da volta, se encantou com um coroa italiano no final da festa e conseguiu me convencer a aceitar a carona do estrangeiro para voltar para casa. Confesso que fiquei indecisa, mas pegar táxi sozinha de madrugada também é perigoso, e se eu pegasse um taxista viciado em livros de assassinatos em série, assim como o do filme O colecionador de ossos? Antes de entrar no carro liguei para o Fernando para dizer o número da placa do veículo, vai que aquele homem que há muito deixou de ser um ragazzo era do tráfico de mulheres?

MÚSICAS DOS FILÓSOFOS

Eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer. (…)“.

Hegel

“A paz invadiu o meu coração. De repente, me encheu de paz. (…)”

Kant

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Heráclito

Você precisa saber
O que passa aqui dentro
Eu vou falar pra você
Você vai entender

A força de um pensamento
Pra nunca mais esquecer

Pensamento é um momento
Que nos leva a emoção
Pensamento positivo
Que faz bem ao coração
O mal não
O mal não

Descartes

Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada.
(Yeah, Yeah)
Toda forma de conduta se trasforma numa luta armada.
(Uoh Uoh)

Foulcault

Nada sei dessa vida
Vivo sem saber
Nunca soube, nada saberei
Sigo sem saber…

Sócrates

ÓCULOS

Estou totalmente encantada por um rapaz chamado Marcus Markans, um colega de curso. Ele também é professor de Filosofia, faz mestrado na UFC e faz parte de um projeto chamado conversas filosóficas. Inteligentíssimo, engraçado, bom senso e  . . . casado, com uma mulher que, aparentemente, teve muita sorte, assim como a educação alencarina.

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